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Artigos

02/04/2015

Mordida

Mordida

Ser pai ou mãe pode ser uma das melhores fases da vida, perceber que agora existe um ser em construção, o filho. Tanto ao pai quanto à mãe cabe a formação dos princípios básicos do que será no futuro um adulto. Ainda que muitas teorias sugiram que a base inicial é somente genética, discordo de forma categórica, pois o seio familiar, desde os menores detalhes como respeitar horário e rotinas da criança até o carinho com que se troca uma fralda, é onde ser formam as bases futuras. Em nossa casa, assim como em muitas outras, uma das brincadeiras que se faz com o filho é a de morder. Assim, dizemos a ele: “Vou morder tudo!”, pegamos o pequeno pé e mordemos de leve. Essa brincadeira se repete com certa frequência e aos poucos percebemos que nosso filho assimilou “morder tudo” como uma atitude de carinho, aprovação. Essa percepção aconteceu, de forma prática, quando certo dia numa brincadeira com minha esposa o filho pegou seu pé e deu uma bela mordida, logo depois disse: “Tudo!”. A demonstração de carinho de morder foi dada por ele também à mãe, com a óbvia falta de controle na força.

Em Filosofia Clínica existe um tópico chamado de Significado, o tópico que contempla as significações atribuídas às comunicações que a pessoa recebe. Ele, uma criança de 1 (um) ano de idade, já tem gravado em sua Estrutura de Pensamento que morder é também uma atitude de carinho. Como lhe falta ainda habilidade linguística e cognitiva não temos como saber se ele diferencia a mordida que damos no pé à mordida que ele dá em suas bolachas integrais. O que chamou a atenção foi o reflexo futuro do entendimento de que mordida é uma atitude de carinho, pode ele num futuro próximo em contato com outras crianças demonstrar seu carinho mordendo. Tanto os pais da criança mordida quando nós, os pais da criança que mordeu, reprovaremos a atitude, mas podemos não perceber que fomos nós que gravamos nele a mordida como forma de carinho.

Desta pequena observação vieram outras, ainda ligadas aos significados, quando dizemos a ele que ele está fazendo “manha” e que fazer manha é feio. Aos poucos ele mesmo começou a dizer: “Manha!” percebendo que o comportamento que tinha era apenas de chamar a atenção para conseguir o que queria. Foi interessante perceber que ele mesmo sabe que está tendo um comportamento de chamar a atenção e delegar a nós a parte de atendermos a sua “manha” ou não. Assim como a mordida pode ser uma atitude de carinho, a manha pode ser uma forma de delegar ao pai ou à mãe a responsabilidade por mimar a criança.

A construção dos significados pode ser feita intencionalmente quando o pai e a mãe percebem qual significado os termos têm e qual eles querem que tenham para a criança. Porém, em boa parte das coisas com as quais a criança entra em contato, ela construirá os significados independente da intencionalidade dos pais, pois eles se quer sabem. Isso porque o convívio em casa entre todos da família gera uma gama extremamente vasta de estímulos para a criança e estes podem ser filtrados até certo ponto. O restante dos estímulos que não são filtrados faz parte da formação cultural da família e estes traços farão parte das bases que formarão o adulto. A mordida pode permanecer gravada na Estrutura de Pensamento da criança e chegar à idade adulta como uma demonstração de carinho e esta replicar a mordida na namorada ou namorado, esposa ou esposo, enfim. Em outras pessoas os significados se alteram, enfraquecem e em alguns casos deixam de ter importância.


Rosemiro A. Sefstrom 

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